segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sobre matrículas e filas

Editorial da revista Saber nº4 (Faculdade Prudente de Moraes)

******************************************


Uma das grandes bandeiras da propaganda governamental no final da gestão de Fernando Henrique Cardoso na presidência da República foi a inclusão de crianças na escola. Dizia-se que o Brasil havia praticamente erradicado a evasão escolar, que não havia crianças longe dos estudos e a eliminação do analfabetismo no país estava garantida.

No governo Lula também ganharam destaque as políticas de inclusão no ensino, sobretudo no ensino superior. O sistema de cotas para negros – polêmicas a parte – e o ProUni são ferramentas que trazem cada vez mais alunos às universidade. Isso, associado ao fenômeno da tão falada e emergente classe C corrobora a tese do petista de que o país nunca teve tanta gente no ensino superior.

De fato, cresce a olhos vistos o número de faculdades e de cursos de graduação a preços cada vez mais acessíveis. A grande questão é discernir até que ponto é benéfica esta inclusão de massa e se isso realmente reflete um progresso.

Se por um lado, generalizando, nossas crianças entram cedo na escola e conseguem seu diploma de ensino superior, por outro o setor privado reclama sempre do mesmo problema: falta mão de obra qualificada. Os índices internacionais de medição da qualidade da educação nos tiram da euforia desenvolvimentista e nos forçam a encarar uma realidade inconciliável com o papel de protagonista que o Brasil quer tomar: ainda somos uma nação de Terceiro Mundo no quesito educação.

Base para o desenvolvimento do país, o Brasil parece ter tomado caminhos desarmônicos para conseguir seu salto de qualidade nesta área. Não basta abrir as portas de escolas e faculdades se é baixa a qualidade da aula, se o professor não está preparado e não é valorizado. É verdade que temos universidades públicas de ponta, mas trata-se de uma elite abismalmente distante do grosso das instituições de ensino no país.

Não é novidade que o problema começa cedo. Os professores de ensino básico são mal preparados e mal pagos. Muitas vezes não dominam o conteúdo da matéria pela qual são responsáveis de ensinar. O aluno também se desmotiva, diante de um conteúdo programático caduco, um método pedagógico distante da realidade digital e interativa a que está acostumado e falta de estrutura física nas escolas. O resultado é indisciplina, falta de interesse e consequente mal resultado nas notas.

Enquanto for dada a ênfase no aluno, de nada adiantará. É preciso olhar para o outro lado do tabuleiro e investir na qualidade do professor – e na estrutura das escolas, no conteúdo do ensino – para que valha a pena que mais gente frequente os bancos escolares, em todos os níveis.

Caso contrário, a quantidade de alunos que cada vez mais entram nas escolas e faculdades continuará a ser proporcionalmente igual ao tamanho da fila de desempregados.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A lâmpada e o telefone

As pessoas gostam de celulares. Bem, eu não posso culpá-las. Celulares deixaram de ser apenas o que são (telefones móveis) e ser tornaram o próprio mundo na mão de cada um. Dá pra mexer na internet, tirar fotos, fazer vídeos (com qualidade cada vez maior) jogar joguinhos (dignos de Playstation). Lembro que os celulares começaram todos pretos, enormes. Aos poucos foram ficando coloridos por fora e na telinha. Finalmente, perderam a indecente antena. Estavam cada vez menores e mais finos. Até que hoje parece haver uma volta ao passado: os modelos mais modernos têm tantos botões que são largos e bolachudos, verdadeiras panquecas eletrônicas. Não preciso dizer aqui mais sobre a tara do brasileiro por celulares. Eles são objetos de desejo e culto em todas as classes. O inusitado aqui é minha frigidez nesta orgia telefônica. Não dou a mínima pra essas parafernálias todas. Celular pra mim tem que fazer ligação e só. Ah sim, outros requisitos importantes são despertador, bloco de notas e lanterna. Acho que sou o último ser humano do mundo que usa com frequência a lanterna em um celular. Por ficar quase o dia inteiro em trânsito, leitura pra mim é fundamental. A lanterna é iluminação garantida. Esse maldito lampião me faz paracer um vagalume paranoico. Mas fazer o que? É preciso se distrair um pouco. Mas no meu próximo celular vou precisar de uma câmera. Mas parou por aí, prometo.

domingo, 27 de março de 2011

B de Brics, B de bão

Olha, o dia em que o Brasil superar essa necessidade de atenção e aprovação no exterior, aí sim seremos potência. Não precisamos de ninguém que nos diga que somos bons.

De todos os Brics, somos o país mais estável, mais atrativo. Não temos conflitos militares. A Índia briga com o Paquistão e tem a bomba atômica. A Rússia tem suas zonas de conflito e fez rápida ação militar na Geórgia esses dias. A China não hesitará em usar a força contra o Tibete e Hong Kong se julgar necessário.

Tirando as chuvas, não temos catástrofes naturais da potência dos terremotos chineses e das nevascas russas. Aliás temos quase todos os tipos de climas. Do deserto à neve. Da umidade do Amazonas à secura do Planalto Central. Somos o maior país em recursos hídricos. Agua vai valer ouro amanhã.

Apesar dos solavancos iniciais e das mazelas, sim, temos uma democracia sólida. Nossa economia está voando.

Mas somos desiguais, muito, muito mesmo. Temos uma classe média novata que está descobrindo o consumo, faz seus crediários e entrou na faculdade. Porém, ainda temos uma nação sem saneamento. A saúde é abrangente, gratuita, mas não dá conta. Lá fora, estamos a mil. Aqui dentro, temos um longo caminho.

Mas eu boto fé no Brasil. O país do futuro está nascendo.

A arara azul e Hollywood

Em meio a novas posições brasileiras a respeito do Irã, abstenção em combater Gaddafi (concordando com os outros Brics) e ainda discutindo a recente visita de Obama (o que diabos quer dizer esse "apreço"?) chega aos cinemas a animação em 3-D "Rio" que traz o Brasil aos holofotes enxergado com os óculos de Hollywood.

Ainda não assisti ao filme, mas pelo que fiquei sabendo, temos muito do velho clichê de país tropical, em que pessoas sambam enlouquecidas pelas ruas acompanhadas de araras e distribuindo macacos pro Stallone. Ok, ok, a natureza brasileira é realmente maravilhosa e única, mas poxa vida, essa brasilidade de exportação não é vivida por todo habitante canarinho.

Muitos brasileiros podem passar a vida inteira sem topar com um índio e com certeza os postes não são poleiros para papagaios e araras. Insistem em retratar nosso país de uma maneira distorcida, exagerada. Olha, adoro um pão de queijo, pé de moleque e acarajé. Mas o acarajé que eu como é vendido por uma senhora negra numa saia armada branca. Ela se folcloriza para vender o acarajé pra mim. Não é uma coisa que se integrou no meu cotidiano de paulista do interior, saca? É diferente do pão de queijo que está presente até no boteco chinês mais obscuro.

O caso é que a sociedade brasileira é essencialmente urbana, pasteurizada. São heróis os que preservam a cultura brasileira. O samba é popular por aqui? É sim. Mas o samba se fundiu à música pop, numa alquimia muito peculiar. A Garota de Ipanema é folclore para as massas. Inimigos da HP é entretenimento de verdade. A distância é quilométrica, mas é o máximo de verdade que podemos dar sobre o quanto o brasileiro de hoje gosta de samba.

Quer um exemplo de uma coisa que coincide com a imagem do Brasil lá fora e a relidade? A paixão pelo futebol. Isso é genoíno. De cada dez brasileiros, pelo menos uns 8 são fanáticos por um time. Ou pelo menos torcem de leve. Se o comportamento extremo diz algo sobre uma sociedade, no Brasil não temos conflitos por religião, mas briga de torcedores rivais mata.

É triste, vivemos na sociedade dos estereótipos. Pense num escocês. Ele deve estar de saia, garrafa de whisky numa mão e gaita de foles na outra. Seu espanhol deve estar dando olé num touro preto. Se eu pedir para minha irmã desenhar um mexicano, ele vem de bigode e com um chapeuzão. Enquanto isso, o australiano brinca com canguros e o africano raquítico tem uma lança na mão. Sabe o que eles têm em comum? Todos curtem a Lady Gaga.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Uma chance para os clássicos

"Fascinado, o garoto corria nos corredores entre os stands. Gritava, pulava e ofegava quando, maravilhado, percebeu um dos que estava procurando. Exibido em um suporte na frente do stand da editora, estava um reluzente exemplar da compilação de crônicas de Carlos Drummond de Andrade. O moleque catou o catatau e não largou mais. Era seu presente de aniversário. Não queria iPhone, Xbox, iPad ou outro demônio eletrônico. Sua imaginação incendiava só pensando em abrir o livro que tinha nas mãos. Era seu universo portátil. Era um teletransporte instantâneo. Sua nave secreta. Um guarda-roupa de fantasias. A lupa para espiar a vida dos outros, vestir sua carne, usar seus óculos."

Click. Desliga.

De volta à realidade, não é esse o sonho de consumo do jovem brasileiro médio. Mas parece que para quem cuida do conteúdo das escolas, parece razoável que garotos de 15 a 17 anos tenham afinidade com os clássicos da literatura nacional. Ah sim, porque nos vestibulares das principais faculdades públicas brasileiras é recomendada a leitura simultânea de obras imortais. Assim, "Memórias de Um Sargento de Milícias", "O Guarani", "Senhora", "Quincas Borba" e tantos outros caem de paraquedas na vida do adolescente brasileiro.

A questão é: autores clássicos e de irrefutável importância e qualidade são lidos com desânimo e contrariaedade pela molecada. A grande maioria não está preparada para eles. Simplesmente não estão a fim. Não é culpa da juventude pois tudo tem seu tempo. Estão enfiando estas grandes mentes da literatura goela abaixo dos estudantes quando ainda não foram despertados para o prazer da leitura. Ou não para a leitura do século XIX, para a leitura que pede óculos da época. Para gostá-los e entendê-los é preciso antes de tudo. querer lê-los.

Esta sempre foi uma questão que merecia discussão, mas agora que temos crianças e adolescentes que passam cada vez mais tempo na internet, é vital discutir como fazer a iniciação deles na literatura. Se já parece estranho ler um jornal de papel, que dirá livros de 200 anos?

Se acostumando a consumir informação pela internet, a leitura se torna cada vez mais sucinta, até superficial. Aí está o Twitter e seus 140 caracteres. Na internet a informação é devorada rapidamente e o apelo visual é muito forte. Fotos, animações e vídeos o tempo todo. Como lidar com esta sede de pirotecnia?

É preciso parar com essa idéia de iniciar os novos direto com os clássicos. É preciso uma leitura mais amena, com um texto mais leve, sem deixar a qualidade do conteúdo de lado, é claro. E o Brasil conta com escritores excelentes nesta área. Por que não começar pela crônica? Temos Luís Fernando Veríssimo, Mário Prata, Moacyr Scliar e tantos outros que são ótimos ritos de passagem para a terra das letras.

Afinal, depois que a onda do vestibular passa e a geração cresce, têm arrepios em topar com esses Machados de Assis e Gracilianos Ramos da vida. Criam um "trauma" com a literatura e preferem passar longe dos livros. Assim, perde-se mais uma geração de leitores. E esta conta vai aumentando em escala geométrica a cada nova turma que deixa as carteiras escolares, ano após ano.

Não podemos esquecer que literatura também é entretenimento e entretém aquilo que é agradável, o que temos afinidade. Vamos dar uma chance para que a meninada goste dos clássicos no momento certo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Perdemos pro Gaddafi

A visita de Obama no Brasil deixou uma certa frustração no ar. O governo queria um apoio forte e explícito para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e recebeu uma manifestação de "apreço". Agora quebram a cabeça para interpretar este gesto. Apreço é apoio? Ou é só um tapinha nas costas? A bola entrou, Arnaldo? Bota o replay de novo pra gente ver.


A visita estava marcada há meses mas os eventos na Líbia e o terremoto no Japão roubaram a atenção do Brasil e deixaram a missão diplomática fora de contexto, de certo modo. Fossem os EUA um jornal, a visita ao Brasil seria derrubada para Obama cobrir a guerra na Líbia, um factual. Obama pode não ser um correspondente de guerra à mercê de Gaddafi, mas foi criticado por dar a impressão de passear ao sol de Ipanema enquanto seu país comprava a terceira guerra simultânea.


Pobre Brasil. Teve os holofotes do mundo roubados no momento de desabrochar como a potência tropical, o oásis em que belezas naturais, povo alegre e êxito econômico fazem nossa nação virar o próprio Éden na terra. Perdemos a chance de sermos abençoados pelo messias de nosso tempo como o exemplo acabado de democracia renascida que de peito e sorriso aberto abraça o mundo. Nossa linda e potente democracia não foi páreo para as vestes psicodélicas de Gaddafi e sua ditadura de 40 anos.

Acho que Renato Russo tem razão:

"Quantas chances disperdicei/ quando o que eu mais queria/ era provar pra todo mundo/ que eu não precisava provar nada pra ninguém."

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Aviãozinho voou

Meu pai chorou. Minha mãe consolou ele, no sofá da sala. Aos 9 anos de idade, eu não tinha visto meu pai chorar muita vezes e certamente nunca o vi chorando com tanta vontade. Eu também estava triste. Mais cedo, naquele dia, fui com meu pai numa padaria do bairro, buscar uma pizza. Ele estava com muita pressa e, como todo mundo no lugar, não tirava os olhos da televisão. Tomei um guaraná enquanto esperávamos a pizza e escolhi um canudo verde e outro amarelo. Fiz isso porque era julho de 1998, dia da final da Copa da França.

A Seleção tentava ganhar um tal de penta e eu estava prestando atenção num jogo de futebol pela primeira vez. Foi a partir dessa Copa que passei a acompanhar futebol. O Brasil tinha Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Denilson, Taffarel (e suas chuteiras verdes, da Topper). Um timaço. Mas tinha mais que isso, tinha Ronaldinho, o melhor jogador do mundo.

O melhor. O astro. O super-herói. O moleque carequinha que marcou uma geração. Que corria driblando, fazia gol e comemorava de braços abertos, fazendo aviãozinho. É esse jogador, o Ronaldinho do aviãozinho, que marcou minha memória como o primeiro grande jogador brasileiro a ser deus na Europa. A ser deus no mundo. Não conseguia imaginar que ele tivesse jogado por um time brasileiro. Parecia inalcançável.

Mas mesmo assim, não teve jeito. O Brasil perdeu, tomou um cacete da França. Ronaldinho teve um piripaque, ou algo tipo, antes do jogo e não foi Fenômeno. E meu pai chorou.