terça-feira, 14 de outubro de 2014

Uma briga sem mocinhos


E as redes sociais se tornam rinhas de galo.

De um lado, petralhas, do outro tucanalhas. Ou assim um grupo enxerga o outro.

O que me cansa é a leviandade do discurso em ambos os lados.

Se o PT teve a compra de votos de parlamentares através do mensalão, o PSDB teve a obscura emenda da reeleição de Fernando Henrique; suposta compra de votos cuja investigação foi engavetada na época.

Se o PT loteou o funcionalismo público e transformou ministérios em feudos de partidos aliados, o PSDB já havia consolidado esta prática. Os tentáculos do PMDB andavam de mãos dados com o governo, tanto que Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC.

O que quero dizer é que não há resposta fácil, nem estrada dos tijolos dourados nessa encruzilhada.

O país amadureceu institucionalmente até aqui graças às contribuições dos dois partidos. Não haveria bolsa família hoje sem a estabilização da moeda com o Plano Real. Talvez ter um celular hoje não fosse tão banal se a telefonia não tivesse sido privatizada.

Também não dá para negar que os condenados do mensalão foram investigados e julgados por agentes do próprio governo - com o maior simbolo do julgamento, Joaquim Barbosa, sido indicado por Lula.

Cabe a cada eleitor ponderar as conquistas de cada governo e, usando a razão, escolher quem lhe parece melhor no próximo 26 de outubro.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

O barraco em Itaquá - na chácara dos Mamonas

Quadro com Dinho foi presente de fãs
Coloquei o pé na sala e senti um negócio esquisito. As paredes estavam cheias de fotos de quatro caras muito de bem com a vida. Discos de platina e diamante pendurados. Reconheci a pintura enorme de um Dinho vestido de Robin. Tinha visto na TV em alguma matéria de anos atrás. Sim, eu estava na casa dos Mamonas.

A matéria nem era minha, mas fiz questão de acompanhar a visita à chácara de Itaquaquecetuba que foi comprada por Dinho e até hoje pertence à sua família.Era ali que os caras descansavam nas folgas e é onde algumas relíquias daquela época estão guardadas. Você pode ler a excelente matéria que meu amigo Douglas Pires escreveu aqui.

O pai de Dinho, seu Hildebrando, impressiona pela semelhança física com o filho famoso. O mesmo queixo quadrado, olhos escuros e o mesmo corte no cabelo branco. Ao longo da conversa ele revelou outras semelhanças.

Seu Hildebrando mistura graça com a firmeza de um coração cicatrizado. “A gente não esquece. Parece que foi ontem. Agora, o que aconteceu com esse rapaz [a morte de Eduardo Campos] parece que volta tudo de novo o que aconteceu com gente”. Mas ao mesmo tempo já emenda uma piada atrás da outra.


Com seu Hildebrando, grande figura

Ele é sempre procurado para falar do filho que brilhou até apagar há 18 anos. Lembrar dos Mamonas é como mergulhar numa pororoca braba entre a alegria do que brincaram em vida e a desolação da tragédia. Não deve ser fácil nadar ali.

Nordestino esperto e muito divertido, seu Hildebrando lembra muito Dinho quando o filho falava sério. No famoso show no ginásio Thomeuzão, em Guarulhos, o vocalista fez um discurso raivoso sobre perseguir os sonhos e conquistar o que diziam ser impossível. O lugar parecia que ia entrar em erupção com tanta energia explosiva do rapaz, que seria velado naquela mesma quadra menos de três meses depois. [Veja o vídeo aqui]

A certa altura, fomos fazer imagens de itens do figurino da banda. Aí o bicho pegou. Estendida na cama, meio amarelada e fedida, estava a pantufa da fantasia de Pernalonga. Também estava o colete roxo e a capa amarela do He-Man, o vestido do Robocop Gay e uma camiseta branca dos Mamonas Assassinas autografada pelo Dinho. Coisa fina. Uma peruca do Xororó e uma grande cartola verde e amarela fechavam o baú de tesouros. “Muita coisa está lá em Guarulhos”, disse seu Hildebrando. Posamos para fotos para guardar de recordação.

Com a peruca do Xororó. Que momento
Eu queria um apartamento no Guarujá / Mas o melhor que eu consegui foi um barraco em Itaquá”. Esses eram os primeiros versos do disco. O barraco em Itaquá foi onde a banda passou sua única virada de ano como super astros.É estranho estar ali. Banal e ao mesmo tempo emocionante pisar na mesma quadra onde aqueles caras bateram uma bolinha, a piscina onde zoaram um monte ou imaginar eles com a família correndo e brincando pelo gramado.

A força dos Mamonas estava no fato dos caras serem de verdade. Poderiam ter sido o projeto de uma gravadora, uma arapuca, uma armação, mas não, os caras eram daquele jeito. Não representavam personagens. Eram só moleques.

Foi depois de um café com pipoca que nos despedimos. Seu Hildebrando já chamava Douglas de Douglinhas e eu já queria chamá-lo para tomar uma cerveja. “Cana na roça dá cachaça e cachaça na cidade dá cana!”, comentou. Ê, seu Hildebrando...

sábado, 28 de junho de 2014

A Copa por um fio

Não sei bem de onde veio. Nem qual o fundamento. Mas senti que teriam pênaltis nestas oitavas de final.

Brasil e Chile no Mineirão. Já disse que o Chile é meu segundo time na Copa. A simpatia pelo país já vem de antes, mas ficou mais forte com resgate dos mineiros uns anos atrás. O grito de chi-chi-chi, le-le-le ficou na minha cabeça.

O time é forte. Vidal, Aránguiz (meu craque no Cartola!), Vargas, Sánchez (temporada melhor que do Neymar no Barça!). Valdívia no banco. Além disso, tiveram uma vitória épica diante da Espanha. Estão a mil.

O Brasil começou bem. Brilhou a estrela do cara que quase ficou de fora: David Luiz. Sentindo dores nas costas, por pouco ficou no banco. Num escanteio, pressionou o zagueiro adversário e conseguiu um gol contra. 1 a 0.

Depois, bobeada. Num lance que durou 3 segundos, Marcelo cobra lateral, Hulk devolve curtinho, Vargas rouba, passa para Sanchez na área, que chuta cruzado. Bá-bá-bá, gol. Não deu nem tempo de anotar a placa. Castigo por um Brasil disperso entregar a rapadura para um Chile ligadíssimo.

E desse lance, saiu um culpado instantâneo: Hulk.

Considero essa cara um tremendo injustiçado. Rápido, habilidoso, chute forte. Tem pinta de centroavante, mas é ponta. É bom tecnicamente.

Mas falta a habilidade para arrematar a mídia. Nesse ponto, se aproxima de outro nordestino tímido que honrou a amarelinha: Rivaldo.

Esteve na mesma situação de David Luiz. Sentiu dores, teve medo de se machucar seriamente. Fez exames. Não tinha nada. Dizem que Felipão sentiu que faltou entrega. Amargou uma partida no banco.

Para Hulk, no Mineirão, faltou uma forcinha do imponderável. Ele fez o gol de desempate numa finalização atrapalhada de joelho, mas o juiz marcou domínio com braço. Eu aposto que foi ombro. Pior, levou uma amarelo.

No segundo tempo, o Brasil era escombros.

Hulk pedala pela direta, deixa o chileno no chão, arremata de esquerda. Bravo defende. Hulk pela esquerda, chute de direita. Bravo defende. Hulk pela esquerda, cruzamento. Jô fura.

Pênaltis.

David Luiz, corajoso, abre a série. Gol. Mais adiante, Hulk tem a chance de fazer o seu, perde.

Júlio César salva.

O que será de Hulk?

terça-feira, 10 de junho de 2014

A culpa não é do hamburguer. É do gordo


O funk é um fato.

Está por toda parte. Na TV, na internet, no rádio. Celulares a todo volume não deixam passageiros de ônibus nem pedestres em paz – sempre tem uma menina ou um moleque ostentando a potência da batida.

Anitta, Valesca Popozuda e MC Guimê são os atuais destaques de uma linhagem que tem Naldo, Tati Quebra-Barraco e Bonde do Tigrão entre os nomes que vêm e vão entre um verão e outro.

O funk tem veneno para todo tipo de paladar. Há letras sobre armas e crime. Outras muitas sobre sexo. Muito sexo. Outros cantam sobre a ostentação de carros, motos, bebida e dinheiro. Há quem veja o funk como o canal para celebrar o “eu” em detrimento de todos ao redor. É a lógica do “desejo a todas inimigas vida longa”. Por fim, há quem consiga enquadrar as batidas na celebração de um dia de sol e algum romance.

Os funkeiros que conseguem conjugar visibilidade com uma mensagem palatável têm mais chance de conquistar espaço nos veículos de comunicação.

É o que aconteceu com MC Guimê. Ídolo da periferia, ostentou milhões de visualizações no YouTube até ser pescado para a TV.

Puxando pela memória, e considerando só os produtos da Globo, me lembro que recentemente Guimê foi repórter por um dia no Fantástico, foi entrevistado pelo histórico  Mário Sérgio Conti na Globo News, foi o “anfitrião” da cidade de São Paulo para dar dicas de passeios aos turistas que virão para a Copa numa série especial do G1. Cereja do bolo: gravou a música de abertura da atual novela das 7. (Não por coincidência, “Geração Brasil”).

Não são poucos os que se incomodam um tipo de música considerada sem qualidade. O debate é bom.

Penso que, se o funk é uma droga, o problema não é substância e sim a dose. Comer um lanche no Mc Donalds é bom. Fazer todas as refeições ali é judiar do corpo e entupir as artérias. O mesmo vale para o funk – sertanejo, pagode, axé, também estou falando com vocês.

Acredito que quanto mais estilos musicais, melhor. Seja ele do nível que for, da celebração da bunda ou da batata.

O problema é se cara ouve SÓ isso. Se a pessoa só escuta funk, não tem interesse em conhecer outros estilos ou em canções que a faça pensar. O problema é o cara viver esse estilo de vida da zueira, da roupa que vale mais que tudo, da festa que vale mais que o estudo – do eu que vale mais que o outro.

O que não pode é o cara sair por aí com seu celular no último para todo mundo ouvir, sonhando em ter seu carro para ligar o som no último para mais gente ainda ouvir.

É esse comportamento, meu amigo, que me incomoda.

Sim, porque acredito que o problema não é a música. Tudo tem sua hora. Se eu estiver numa festa e dependendo do humor (e da cerveja) rolar um pagodinho, um funk ou o arrocha que seja, também vou curtir. Num domingo quente de praia não dá pra tocar Milton Nascimento, por exemplo.

O bom humor e o calor humano brasileiros são o nosso diferencial perante outras nações. Mas não podemos deixar a malemolência e o ziriguidum nos derrubarem.

O excesso de junk food musical também é estimulado pela mídia, sem dúvida. Mergulhada numa crise que parece mortal, a indústria fonográfica aposta todas as esperanças no que der o retorno mais imediato. Dá-lhe beijinho no ombro, o sertanejo mais debilóide, o pagode mais boca aberta, a balada rock mais picareta... Isso alimenta o que vemos na TV, ouvimos no rádio, repercutimos nas redes sociais. Não há a menor chance ao artista com uma proposta mais inteligente ter espaço junto ao grande público.

Ouvir um estilo não significa anular outro. Se a TV e o rádio tomaram suas decisões, a internet está aqui. Conhecer o que já foi feito na música e o que está acontecendo de novo é uma jornada que não tem fim. Não se trata de discutir sobre qualidade da canção – mas da curiosidade musical e da educação de quem ouve.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Jogo de palavras


A crise da água paulista trouxe à tona um problema de vocabulário para Geraldo Alckmin. Conforme as torneiras secam, aumenta o contorcionismo linguístico do governo para amenizar a situação. 

Veja, uma especulada multa para quem consumir acima do habitual foi chamada pelo governador de sobretaxa. Quem mora na região metropolitana sabe que tem dia e hora certa para faltar água. Mas o que acontece não é um racionamento e sim uma intermitência no abastecimento, conforme a Sabesp. Tá bom.

Isso me fez lembrar que outras coisas já não se chamam mais como eu aprendi.

As pessoas não morrem mais de derrame. Têm um AVC. O doce que o pequeno Pedro chamaria de bolinho, hoje tem o nome de cupcake. Talvez digam que cupcake não é um bolinho diferente, mas sim diferenciado, que é o diferente especial.

Favela virou comunidade. Deficiente virou portador de deficiência. Valesca Popozuda tirou da obscuridade um termo psiquiátrico - recalque - e o colocou como substituto de inveja no Aurélio das ruas.

Por mais que algumas coisas mudem ao sabor do gosto do povo, outras palavras permanecem amarradas para sempre numa mesma expressão.

A távola sempre será redonda, a meada sempre vai ter um fio (às vezes perdido). Quem não tem eira, também fica sem beira.

A resposta estaria nas gavetas do engavetamento?


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Me convoca, Dilma!


Felipão já convocou seus jogadores, mas para mim ainda falta o Fred para fechar a seleção. Sua vaga está lá esperando. Se a 30 dias da Copa ainda tem estádio em obras, Dilma já pode me escalar na reforma ministerial: vinha completando uma arena por semana até outro dia, mas aí a grana para as figurinhas acabou. “Nada que prejudique a #CopadasCopas”, postaria nossa presidenta-competenta.

A febre do álbum da Copa me parece um oásis de entusiasmo num deserto de desilusão neste mês que precede o Mundial. Não é preciso repetir aqui as razões para a má vontade – ou mesmo raiva – com a Copa. As manchetes dão replays dos gols contra administrativos todos os dias.

Porém, percebo que o colecionismo das figurinhas se conectou com um amor pelo futebol que temos dentro de nós e que vem antes do ódio pelos maus governos. Mais que isso, os pacotinhos de cinco adesivos por 1 real conseguiu nos fazer curtir, comentar e compartilhar com os amigos no modo offline e carne e osso.

Me surpreendi em ver o volume de pessoas se divertindo em colar fotos num catálogo de papel. Por um momento, deixamos de ser essas criaturas hiperdigitais do 3º milênio para curtir um hobby tão velho quanto o Zagallo..

Porém, ainda não vejo as ruas pintadas de verde e amarelo. Poucos comércios estão enfeitados. Muitos se limitam a exibir na parte da frente suas cornetas e outros apetrechos à venda para torcedores. O cima de Copa custa a nascer.

Há sete anos a Copa era vista pelo governo e imprensa como uma vitrine do Brasil para o mundo. Mostraríamos a força de um país que deixava a lama rumo ao Olimpo do planeta.

E não é que eles estavam certos?

A Copa serve como vitrine sim, mas para mostrar para o mundo aquilo que já conhecemos: incompetência para entregar o que é prometido, superfaturamento e descaso com as necessidades básicas do povo.

Essa vai ser a Copa do “estádios e olhe lá”. O torcedor estrangeiro pode esperar o que o brasileiro tem: um lugar para sentar a bunda e ver o jogo. Vai ser trânsito para chegar, para sair, fila, falta de informação, comida cara. E dê-se por satisfeito.


Ah sim, e o legado da Copa? Um álbum com figurinhas de estádios em obras para guardar de recordação.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

De Pato pra Ganso


O São Paulo acabou sendo o time que emprega duas decepcionantes ausências na lista dos convocados para a Copa do Mundo de 2014. Alexandre Pato e Paulo Henrique Ganso perdem sua segunda Copa consecutiva. Culpa deles próprios.

No caso de Pato, dá para traçar um paralelo com Neymar. O santista teve tempo de provar seu talento, indo além das jogadas impressionantes. Ganhou títulos, conquistou a Libertadores e foi sempre o protagonista. Mesmo que nunca mais venha a jogar pelo Santos, já cravou seu nome na história do clube. Foi para a Europa quando não havia mais degrau para subir no Brasil.

Já Pato foi alçado à condição de super-craque graças fazendo menos de 30 partidas pelo Internacional. Não teve tempo para liderar uma campanha longa que resultou num título.

Na Itália, as sucessivas lesões minaram sua frequência em campo e o tiraram da Copa da África do Sul, em 2010. Fatalidade.

Corta para o Ganso.

Sua visão de jogo, passes precisos, dribles curtos e muita categoria o alçaram à condição de melhor meio-campista do país.

Dunga foi infernizado para levar a dupla Neymar-Ganso para a África. Muitos garantiam que ao menos a presença de Paulo Henrique era fundamental. Ganso não foi convocado e perdeu sua primeira Copa.

Enquanto boa parte do brilho de Neymar no Santos se deve ao fato dele não ter se machucado, Ganso ficou mais de seis meses parado após romper os ligamentos do joelho. Vejo esse fator como determinante em sua carreira, pois foi ali que perdeu sua regularidade no rendimento.

Sentindo-se desvalorizado diante dos privilégios de Neymar, Ganso foi para o São Paulo  - um plano B onde teria mais espaço e o status de grande contratação. Saiu brigado com a torcida santista e com o futebol em baixa,

Volta para Pato.

O momento decisivo na carreira de Pato foi sua decisão de trocar a Itália pelo Corinthians. Arriscado, pois o esquema tático de Tite não tinha espaço para ele e seu perfil era muito diferente do jogador raçudo e brigador que faz o gosto da torcida.

Deu a lógica: sua passagem pelo Parque São Jorge foi marcada pela displicência e falta de comprometimento. 

Mostrou deficiência em fundamentos, perdeu muitos gols, se escondia entre os zagueiros... A inaceitável cavadinha defendida por Dida foi o retrato acabado do jogador que se coloca acima do grupo e cultiva a pose. Nada podia ser pior diante dos olhos de Felipão.

Desmoralizado, Pato foi para onde deveria ter ido antes, o São Paulo. Visivelmente mais à vontade, tenta encontrar seu bom futebol, mas é tarde demais.

No Morumbi encontrou um Ganso que há um ano tenta provar que é mais do que uma miragem do passado. Está difícil com o ritmo de uma jogada boa a cada três jogos ruins. Seu estilo de jogo refinado hoje é visto como lento e o jogador - claramente orientado por seus agentes - tenta desviar o foco dando entrevistas em que se diz acima da média e criticando o esquema do treinador. Deprimente.

"De Pato para Ganso", assim como no infame trocadilho, nada muda no destino dos jogadores, apesar das histórias diferentes. Tinham tudo para ser titulares nesta histórica Copa, mas morreram abraçados. Quem sabe na próxima...